Saúde mental na escola: por que e como praticar? Confira!

Nos últimos anos, a saúde mental na escola tornou-se pauta protagonista. Com a chegada da pandemia, mais do que nunca, é necessário estar atento ao comportamento dos alunos.

Porém, não são somente as crianças e adolescentes que estão sofrendo as consequências deste momento. Todos os educadores sentiram os impactos desta mudança drástica na rotina da vida e do cotidiano escolar.

Para ajudar você a pensar em como perceber e trabalhar a saúde mental na sua escola, entrevistamos o médico psiquiatra e organizador do livro “Saúde Mental na Escola: o que os educadores devem saber”, Gustavo Estanislau.

Saúde mental na escola, entrevista com Gustavo Estanislau

Quais foram os efeitos negativos da pandemia na saúde mental?

Os impactos da pandemia possuem uma raiz muito parecida. Primeiro, houve uma quebra nas rotinas e, com essas mudanças drásticas, todos apresentamos um estado de maior estresse por conta da quantidade de adaptações. Nesse momento, nosso funcionamento foi entrar em alerta a tudo o que mudou e isso acaba por gerar estresse.

Com o tempo, começamos a ficar mais preocupados com as notícias, incertezas e dúvidas que chegavam a todo momento. Com isso começamos a apresentar níveis maiores de ansiedade. Que vem acompanhada de medos: de sair de casa, medo do futuro, etc.

A diferença entre ansiedade e estresse é que, na primeira, existem pensamentos problematizadores e um hiperfoco em coisas que te preocupam. No estresse, que apareceu inicialmente, é um pouco diferente porque a pessoa tende a ficar mais à flor da pele, mais irritável e emotiva. Um terceiro tipo de fenômeno começou a aparecer com mais frequência após tantos meses: o desânimo, tristeza, falta de motivação. Essa queixa não era tão comum no início da pandemia, mas ultimamente as pessoas começaram a se sentir desconectadas.

A questão é que, do ponto de vista de saúde mental, os impactos foram parecidos, mas a expressão deles pode ter sido diferente.Do ponto de vista físico, as crianças, adolescentes e adultos apresentaram um aumento de:

  • Queixas sobre dores no corpo;
  • Problemas como insônia;
  • Aumento de apetite;
  • Ganho de peso;
  • Falta de exercício físico.

Nos adultos, os maus hábitos, como o tabaco e o álcool, ganharam força. Como se tudo isso não fosse suficiente, para quem está em lugares fechados ainda há o problema de pouco sol, o que causa uma baixa de vitamina D e isso tem consequências negativas para o organismo.

Como foi o impacto nas crianças e adolescentes?

No primeiro momento, as crianças estavam num estado de estresse e ansiedade, muito mais infantilizadas, regredidas e manhosas. Muitas voltaram a ter medos que não tinham mais, dormir na cama dos pais, ficaram mais seletivas com a comida, mais choronas, com medo do futuro e de sair de casa.

Os adolescentes, de certa forma, acabaram se blindando dessas preocupações e de ansiedade através de um aumento no uso de jogos eletrônicos. A pessoa fica hiperfocada nesse tipo de atividade e não entra em contato com o estresse, tédio e angústia pelo que está por vir.

Do ponto de vista do desânimo, vimos muitas crianças pedindo, e pais topando, que elas não assistissem mais às aulas. Vi pais ajudando muito na realização das atividades para que entregar o que fosse necessário para passar de ano, permitindo que os filhos não tivessem mais aulas online ou realizassem as atividades.

Vimos uma desconexão com a escola neste período da pandemia e, de forma geral, todos se desconectaram e se afastaram emocionalmente do que gostavam: encontros com amigos, hobbies, etc. Vai ser um desafio, mas é importante que, pouco a pouco, se façam essas reconexões.

E com os educadores?

Do ponto de vista dos professores, no início vimos um tipo de estresse bem comum. Como eu disse antes, as pessoas mais emotivas, mais à flor da pele, mais irritadas, etc. Quando ficamos estressados, nosso cérebro tende a ficar muito atento às ameaças e ao que está dando errado.

Vi muitos educadores com a sensação de não estar conseguindo fazer nada direito e isso, muitas vezes, era um viés do estresse inicial. Na ansiedade, houve muita preocupação com a volta às aulas, com a própria saúde e a dos alunos.

No desânimo, a terceira fase, há muitos casos de depressão, muitas pessoas que já não estão aguentando mais a barra de ter que continuar conectado. Querendo parar, mas dependentes de atividades tecnológicas que podem ser pouco intuitivas e bastante complexas para alguns.

Educadores tiveram um estresse adicional com a sobreposição de jornada do cuidado da casa e do trabalho, filhos, da própria saúde, tudo em simultâneo. Isso foi um desafio muito grande e acabou gerando bastante angústia e estresse.

Quais dicas você pode dar aos educadores para superarem os desafios deste período?

Para acolhermos uma pessoa, seja em uma pandemia ou fora dela, o autocuidado tem que vir em primeiro lugar. Temos que partir de uma saúde mental razoavelmente boa, pois se eu estiver muito estressado, irritado, tenso, com muito medo ou tristeza, é improvável que eu consiga fazer um acolhimento efetivo.

No acolhimento, buscamos reduzir o nível de ansiedade e preocupações que a criança tem, passando informações corretas de uma forma que o aluno possa entender e ter os cuidados necessários, mas sem fazer um alarde muito grande para não causar pânico. O que eles querem é conforto, estabilidade e tranquilidade.

Então, o educador tem que cuidar de si mesmo e da sua saúde em primeiro lugar, para poder cuidar do outro. É muito importante:

  • Alimentação saudável;
  • Dormir bem;
  • Hidratar com frequência;
  • Realizar exercício de respiração e/ou meditação;
  • Fazer exercício físico com regularidade.

Para você poder fazer bons acolhimentos, tenha também autocompaixão. Cuidar de nós mesmos de uma forma amável e agradável, se permitindo cometer alguns erros. Afinal, são muitos os cenários que não conhecemos. Muitos os desafios que não estamos habituados a lidar e que não temos certeza de como lidar.

É fundamental, também, buscar formas de desenvolver o pensamento de gratidão em relação às coisas, fazer com que consigamos perceber as coisas boas que também estão acontecendo à nossa volta.

Olhar ao redor e tentar identificar coisas pelas quais nos sentimentos gratos faz com que o cérebro exercite essa via de olhar. Afinal, em momentos de estresse como esse que estamos vivendo, usamos muito o circuito de só perceber ameaças e erros.

Como acolher os alunos de forma efetiva?

É importante aguçar o olhar em relação ao aluno, prestar atenção e estar aberto aos sinais que as crianças podem dar. As pequenas geralmente dão sinais mais objetivos, como, por exemplo, ela fica menos brincalhona, falante e sociável. Já os adolescentes podem apresentar as mesmas coisas que os menores, mas podem mandar sinais menos claros. Como levantar com mais frequência assuntos que denotam que ele está mais triste ou irritável.

Então, se estamos atentos, conseguimos agir de uma forma preventiva e evitando que uma coisa pior aconteça. Uma boa forma de fazer isso é perguntar para cada um dos alunos como foi esse período, como ele está e mostrar interesse. Isso nos dá a oportunidade de observar que alguma coisa não está legal.

Se for possível, é legal entrar em contato com ex-professores que conhecem a criança há mais tempo para saber se ela já teve algum tipo de comportamento anteriormente, ou não. Às vezes, não temos muito parâmetro e podemos ficar sem perceber alguma coisa que mudou nesse período.

Por último, recomendo que, na medida do possível, os educadores tentem estabelecer algum tipo de contato com os pais. Sei que isso pode ser complexo, mas é bom tentar compreender como foi esse período para a criança, como ela passou esse tempo e se houve algum tipo de situação mais complicada.

O professor pode ficar mais alerta com alguns alunos. Houve também os casos dos alunos que não estão voltando, por algum motivo, para a escola. O aluno se distanciou, por ansiedade, medo, desânimo ou achou outras motivações. O professor tem que fazer esse papel ativo de buscá-lo para tentar uma reaproximação com a escola.

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Gustavo Estanislau

Médico Psiquiatra, Especialista em Psiquiatria da Infância e da Adolescência pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre (UFRGS). Doutorando em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Organizador do livro “Saúde Mental na Escola: o que os educadores devem saber”, lançado em 2015, pela editora Artmed. Pesquisador do Y Mind – Centro de Prevenção de Transtornos Mentais. Palestrante, consultor em instituições de ensino e psiquiatra clínico. Atuou como pesquisador clínico do Programa de Reconhecimento e Intervenção nos Estados Mentais de Risco (PRISMA) da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e como membro  do Grupo de Estudo de Adições Tecnológicas (GEAD) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

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