Cinema na sala de aula: como aplicar o ensino multimídia

2017-05-16

Há muito se discute sobre a urgência de que o sistema educacional dialogue com o todo da sociedade e inclua em suas ferramentas as práticas sociais que circulam dentro dela. Uma das formas de fazer isso está na inclusão de mídias diversas no processo educacional e o cinema na sala de aula é uma delas.Os meios de comunicação e as artes constituem uma fatia considerável das práticas sociais com grande potencial pedagógico, mas ainda é mal utilizado. Neste texto, vamos abordar como usar o cinema na sala de aula, entendendo sua importância no processo de ensino e aprendizagem.

Porque e como usar o cinema na sala de aula?

O cinema por diversas vezes foi considerado um instrumento educativo, inclusive por seus produtores e pela própria indústria. Como exemplo, podemos citar a produção cinematográfica dos países africanos de língua portuguesa.A partir da segunda metade da década de 1970 as obras dessas regiões estiveram marcadamente voltadas para a propagação dos ideais da independência e para a pesquisa e construção de uma identidade nacional. Estratégia parecida com a adotada pela ficção romântica brasileira do século XIX.No Brasil, não é difícil encontrar professores interessados usar o cinema na sala de aula. No entanto, como aponta Laura Coutinho, professora da Faculdade de Educação de Brasília, estando a educação escolar ainda em grande parte centrada na escrita e oralidade das aulas expositivas, o filme chega ao ambiente escolar meramente como ilustração. Considerado ainda como um anexo, um acessório do texto, que ainda é o mais forte referencial para a escola.O filme acaba servindo, portanto, como exemplificação de passagens do texto ou de temas tratados em sala de aula: um filme sobre a Segunda Guerra Mundial quando é este o assunto da aula de História, um filme sobre um personagem com doença rara na aula de Biologia, outro baseado na obra de Machado de Assis na aula de Literatura.O mais perigoso disso é justamente o tratamento que se dá ao conteúdo visto na tela, quase sempre tomado como retrato fiel da realidade e não como o que verdadeiramente é: a visão de alguém sobre determinado fato, uma forma peculiar de ver o mundo e transfigurá-lo em arte.Com o cinema na sala de aula é preciso, então, certos cuidados, entendendo que o filme em questão:

  • Não é uma cópia da realidade (nem quando pretende isso)
  • Não “reconstrói” o passado
  • Não narra a vida de personagens históricas tal qual elas eram

Ao contrário, o cinema é;

  • O ponto de vista de um roteirista, um diretor, um editor e toda uma equipe sobre os eventos narrados,
  • A construção estética de uma visão sobre o real.

Sobre essa visão deve recair as impressões e a interpretação dos alunos e professores, que a partir daí podem construir suas próprias conclusões.É nesse ponto que a atitude comum no meio escolar de usar o cinema na sala de aula como ilustrações de temas e textos se mostra especialmente problemática.Muito comuns nas aulas de língua materna ou estrangeira, os filmes frequentemente aparecem na forma de adaptações de textos literários. Aqui, outro problema é a postura de encarar a adaptação necessariamente como uma tradução literal da linguagem literária para a audiovisual. Vem daí o argumento tão recorrente de que “o livro é melhor que o filme” (o inverso dificilmente é comentado).Nossa recomendação, neste ponto, é de que professores e alunos façam uma reflexão sobre as relações entre as diferentes linguagens, mídias e suportes. Podendo discutir sobre as perdas e ganhos da adaptação e dos elementos que são particulares à obra original e à adaptada.Muito mais rico que considerar um como cópia do outro, trabalhar dessa forma contribui para discutir com maior profundidade as diferentes práticas artísticas e evita a saída mais fácil de ver o filme em substituição à leitura do livro.

Cinema na sala de aula como expressão artística

Outro aspecto importante que podemos destacar, é o fato de que dificilmente o cinema, na educação escolar, é tido como a prática comunicativa e artística que é. Ao contrário, é quase sempre – como já apontado anteriormente – visto como auxiliar do texto escrito ou falado.Para evitar esse deslize, nossa sugestão é que os professores de quaisquer disciplinas, quando optarem por levar um filme à sala de aula, debruçem-se sobre ele com a devida atenção, atentando-se para análises mais profundas, como por exemplo:

  • Vendo-o enquanto um projeto dotado de uma linguagem específica
  • De escolhas que o diferenciam de outros do gênero
  • Que usa determinados recursos tecnológicos
  • Tem um posicionamento quanto à produção artística e à política de seu tempo.

Acreditamos que o cinema na sala de aula tem um amplo potencial educativo e seu trabalho pode contribuir muito para o desenvolvimento de novas possibilidades para a educação brasileira, que ainda é necessitada de inovações de toda natureza.Por conta disso, a Árvore de Livros investiu num festival de curtas como forma de promover o diálogo entre a literatura – nosso principal instrumento de trabalho – e o cinema. Nosso objetivo não é, de modo algum, exigir de professores e alunos adaptações fiéis de livros para filmes, mas pensar criticamente as diferentes linguagens artísticas, compreender as relações entre elas e, a partir disso, construir algo original e prenhe da subjetividade de quem o produziu.Para saber mais sobre o festival, visite o site www.arvoredelivros.com.br/festival , lá você encontra o regulamento e consulta todos os prazos.A Árvore de Livros faz um trabalho pedagógico de desenvolvimento da leitura em uma plataforma 100% digital. Somos apoiados pela Fundação Lemann e adotados por grandes redes de ensino como a Rede La Salle e a Rede Salesiana.

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