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Leitura
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A formação de leitores ainda é, muitas vezes, associada exclusivamente ao ambiente familiar. A ideia de que “o gosto pela leitura vem de casa” segue presente no senso comum e em debates educacionais. No entanto, dados recentes mostram que essa percepção é incompleta e que a escola exerce um papel central, e muitas vezes determinante, na construção do hábito de leitura.
De acordo com a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, o interesse pela leitura entre crianças e adolescentes surge, principalmente, a partir de três influências: a escola, a família e a identificação com autores. O levantamento aponta que 46% dos leitores indicam a escola ou o professor como principal estímulo, enquanto 29% citam a influência da mãe ou responsável feminina e 30% destacam a identificação com um autor .
Esses dados reforçam um ponto fundamental para a educação básica: formar leitores não depende apenas de incentivo, mas de acesso qualificado e mediação consistente.
Formação de leitores e representatividade na leitura
O percentual de leitores que aponta a identificação com autores como fator decisivo evidencia uma discussão cada vez mais presente nas escolas: quando estudantes não se reconhecem nas histórias que leem, a conexão com a leitura tende a enfraquecer.
A pesquisa mostra que o hábito leitor atinge seu pico entre os 11 e 13 anos e cai progressivamente durante a adolescência. Entre os fatores associados a essa queda está a desconexão entre as leituras propostas e as vivências dos jovens. Quando os livros não dialogam com suas realidades, interesses e referências culturais, a leitura passa a ser vista como uma exigência escolar e não como uma experiência significativa .
Nesse contexto, a bibliodiversidade se torna um elemento-chave na formação de leitores. Ampliar vozes, autores, temas e perspectivas aumenta as chances de identificação, fortalece vínculos e contribui para a construção de um hábito leitor mais duradouro.
A escola como mediadora do hábito de leitura
Os dados também evidenciam desafios estruturais importantes. Apesar de a escola ser o principal agente de influência positiva para o interesse pela leitura, nem sempre ela consegue garantir acesso regular a obras variadas e atualizadas. Apenas 30% dos estudantes afirmam encontrar todos os livros indicados nas bibliotecas escolares, e uma parcela significativa relata não receber indicações de leitura com frequência .
Esse cenário reforça o papel da escola como espaço de curadoria e mediação da leitura. Mais do que disponibilizar livros, formar leitores envolve decisões intencionais sobre quais obras circulam, como são apresentadas e de que forma a experiência de leitura é construída ao longo do ano letivo.
A mediação qualificada - feita por professores, bibliotecários e projetos estruturados de leitura - é um dos fatores que mais impactam o engajamento dos estudantes com os livros.
Formação leitora também é decisão de gestão escolar
A formação de leitores não se restringe às práticas em sala de aula. Ela envolve decisões de gestão que influenciam diretamente o cotidiano escolar, como a composição do acervo, a renovação das coleções, o acesso democrático aos livros e o incentivo a experiências diversificadas de leitura.
A pesquisa mostra que, quando o ambiente familiar não oferece referências leitoras consistentes, a escola assume um papel ainda mais relevante. E quando esse papel é exercido de forma intencional, os resultados aparecem: estudantes leem mais, se engajam mais e constroem uma relação mais consistente com a leitura ao longo do tempo .
Formar leitores, portanto, vai além do incentivo pontual. Trata-se de uma construção contínua, baseada em acesso, diversidade, mediação e decisões conscientes, que reconhecem a leitura como parte estruturante da experiência educacional.




